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O Homem mantém-se sentado no canto do palco e vê uma jovem entrar a correr enquanto despe uma roupa vermelha e a larga no meio do palco:
A jovem fica de cinzento e cai junto à roupa vermelha largada a meio do palco.
O Homem levanta-se e dirige-se para perto desta. Ao chegar junto da mesma, ajuda-a a levantar-se.
Entretanto o jornalista entra em palco com uma folha enorme a tapar-lhe o rosto. O jornalista quer esconder-se de olhares de terceiros e entra sorrateiro.
O diálogo inicia-se no momento em que o Homem ajuda a Jovem Rapariga a levantar-se.
Homem – Estás bem?
Jovem Rapariga – Não sei bem! Onde estou?
Homem – No lugar onde realizamos todos os teus sonhos.
Jovem Rapariga – Neste lugar tão escuro realizam os sonhos das pessoas? Tem a certeza?
Homem – Para dizer a verdade, ajudamos as pessoas a compreenderem que podem realizar os seus sonhos. É essa a minha função, ajudo as pessoas a perceberem que a felicidade está ao alcance de qualquer um.
O Jornalista que está a assistir sorrateiramente a tudo, dispara:
Jornalista – Ah, que belo título para amanhã: “O poeta mentiroso!!!”
O diálogo continua:
Jovem Rapariga – E como fazes isso? Como ajudas as pessoas a perceberem que a felicidade pode estar ao seu alcance.
Homem – Preciso primeiro de saber o que trás as pessoas aqui ao meu encontro…
Jovem Rapariga – Mas eu não sei como vim aqui parar.
Homem – Alguma coisa deve ter acontecido. Qual a última coisa de que te lembras antes de acordares aqui?
Jovem Rapariga – De ter discutido com os meus pais… (a moça fica em silêncio, denunciando um ar pensativo)
Um homem entra com uma cadeira e coloca-a por detrás do Homem, convidando-o a sentar-se. O Homem senta-se e a rapariga continua:
Jovem Rapariga – Lembro-me que recebi uma carta.
A cena prossegue sem que a Jovem Rapariga se dirija directamente ao Homem.
No palco entra um carteiro de bicicleta que trás uma carta na mão.
Carteiro – Menina, uma carta para si.
Jovem Rapariga – Para mim?
O Carteiro abandona o palco na sua bicicleta, deixando a rapariga à vontade.
Enquanto a jovem abre o envelope, um casal entra em palco, mantendo-se um pouco afastados, são os pais da Jovem Rapariga.
Pai – Uma carta para a nossa menina? O que será?
Mãe – A carta de algum namorado, com certeza!
Pai – De um namorado? A minha filha tem lá idade para namorar? A nossa menina só tem vinte anos, não te esqueças disso…
Mãe – Então que pode ser?
A Jovem Rapariga começa a jubilar de alegria após ter lido o que consta na dita carta. Desata a correr, feliz, dirigindo-se aos pais para contar a novidade:
Jovem Rapariga – Pai! Mãe! Adivinhem!!!
Mãe – O quê filha? Conta logo!
Jovem Rapariga – Recebi uma carta de uma escola estrangeira, endereçando um convite para ir tirar o curso de ballet artístico.
Mãe – Que bom, filha!
Pai – E terias de ir para o estrangeiro?
Jovem Rapariga – Claro, mas valerá bem a pena o sacrifício. Este curso era o meu sonho, lembras-te?
Pai – Não me interessa! Para o estrangeiro não sais. E depois, isso não é futuro para ninguém!
Jovem Rapariga – Mas pai!
Pai – Não há cá mas, nem meio mas!
Mãe – Filha, ouve o teu pai que é mais velho e mais experiente…
Jovem Rapariga – E se eu quiser ir, mesmo contra a tua vontade?
Pai – Serás vista como uma de fora. Enquanto estiveres sobre minha alçada fazes aquilo que eu quero ou então podes abandonar esta casa e esta família para sempre. Serás obrigada a desenrascares-te sozinha, será deserdada, e não contarás com o apoio, seja ele qual for, nem meu nem da tua mãe.
Jovem Rapariga – Isto é verdade, mãe?
Mãe – Filha, o teu pai é a pessoa mais sensata que está entre nós, temos de respeitar e aceitar as decisões dele. Faz o que ele manda e recusa esse convite.
Pai – Nem mais, recusa esse convite tolo e continuarás a ter todo o nosso apoio.
Jovem Rapariga – Se é assim que quereis, assim o farei!
Dois homens entram em palco com uma janela e dirigem-se para o limiar do palco, colocando a janela de frente para o público.
Os pais da jovem abandonam o palco e ela dirige-se a correr para perto do Homem que está sentado na cadeira e diz:
Jovem Rapariga – Depois lembro-me que fui para a janela do meu quarto.
A rapariga dirige-se lentamente e silenciosamente até à janela que dois homens seguram, um de cada lado, debruça-se sobre a mesma e virada para o público, continua:
Jovem Rapariga – Olhei para os astros que começavam a aparecer àquela hora e lembro-me de ter pensado que a felicidade me tinha fugido para sempre naquele momento. O meu sonho morrera ali, poucos segundos após ter ganho ainda mais vida! Um autêntico balde de água fria.
O Homem levanta-se da cadeira e aproxima-se, colocando a mão direita sobre os ombros da Jovem Rapariga:
Homem – E depois só te lembras te teres vindo aqui parar e de estares vestida com essa roupa cinzenta, certo?
Jovem Rapariga – Certo! Foi exactamente o que aconteceu…
Homem – Pois. Aqui é onde indicamos o caminho certo que deves seguir para ires de encontro à tua felicidade.
Jovem Rapariga – E qual o caminho certo?
Homem – Deves ir para o estrangeiro. Deves aceitar o convite. Deves ir, mesmo contra a vontade dos teus pais.
Jovem Rapariga – Mas assim perco o apoio deles, terei de trabalhar para me sustentar, e vou perder também o amor dos meus pais.
Homem – Perdes o apoio, nunca o amor! Mais tarde ou mais cedo, eles orgulhar-se-ão de ti. És jovem, tens imaginação, vais arranjar um modo de sustentares os teus estudos mesmo que a bolsa que a escola te dá não chegue para todas as despesas.
Jovem Rapariga – E tens a certeza de que vou conseguir, mesmo sozinha?
Homem – Claro que tenho!
Jovem Rapariga – E por que hei-de confiar em ti?
Homem – E por que raio vieste parar aqui? Por que não hás-de confiar em mim? Vês aqui mais alguém? Não te resta senão confiar naquilo que te digo…
O Jornalista ao fundo esconde-se de modo a não ser visto pela rapariga que procura em vão a presença de mais alguém.
Homem – Como vês, estamos sozinhos. Acreditares naquilo que te digo é a tua única saída. Ousar arriscar é o único caminho que leva à felicidade…
A mulher reflecte durante uns segundos e após isso vai ao meio do palco, volta a vestir a roupa vermelha e sai a correr, alegre, rumo ao seu sonho
No mesmo momento em que a mulher se dirige ao meio do palco para vestir a roupa vermelha, os dois homens que têm a janela na mão saem do palco e entra um outro que vem buscar a cadeira onde o Homem assistira ao decorrer da cena da Jovem Rapariga.
Homem – E esta, hein!!! Quem diria? (e sai do palco)
Sozinho no palco, o jornalista não precisa mas de se esconder, grita bem alto:
Jornalista – Ah, que belo título para amanhã: “O Poeta milagreiro!!!”
O Jornalista abandona o palco a correr, nitidamente animado.