domingo, 14 de março de 2010

5ª parte



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O Homem volta ao palco:

Homem – Marquei aqui com o tipo da editora precisamente a esta hora! Por onde andará? Não sabe que tempo é dinheiro? Oh Deus, mas o que estou eu a dizer? Estou a ficar contagiado!

Um outro homem entra em palco, é o editor.

Editor – Oh amigo, desculpe o atraso.
Homem – Não faz mal, o que importa é já cá estar.
Editor – Então mostre lá o que tem aí para eu ver.
Homem – São apenas umas coisitas que escrevi, nada de especial! (enquanto lhe entrega um caderno nas mãos)
Editor – Não se subestime homem, deixe lá eu ver isto e tirar as minhas próprias conclusões. (enquanto desfolha o caderno)
Homem – Veja, veja, esteja à vontade.
Editor – Você tem o dom da palavra, rapaz! Que belos versos, isto pode ser muito rentável. Dou-lhe trinta notas por cada um dos seus poemas…
Homem – Não os contei, não sei quantos tenho aí?
Editor – Deve ter aqui uns vinte cinco, trinta poemas no máximo. Dou-lhe novecentas notas pelo caderno e fechamos o negócio. Você continua a escrever e quando tiver outro caderno idêntico, eu dou-lhe mais algum! Está bem assim?
Homem – Por que não? Está bem, claro!

Ao fundo, o jornalista entra em palco com timidez, tentando escutar a conversa entre os dois.

Editor – Você vai ser um sucesso, acredite!
Homem – A ver vamos, a ver vamos…
Editor – Oh amigo, chegue lá aqui.
Jornalista – Eu?
Editor – Sim, claro! Está a ver mais alguém?
Jornalista – Diga, diga! (aproximando-se)
Editor – Pegue lá cem notas e trate de amanhã colocar este homem na primeira página do jornal.
Jornalista – E qual a notícia, senhor?
Editor – “O grande poeta chegou! Em breve já pode adquirir os seus belos poemas através da Editorial Ler_doce_lar”. Qualquer coisa assim, invente você mesmo, esse é o seu trabalho!
Homem – Vou ser alvo de propaganda?
Editor – E como pensa que vou vender os seus poemas?
Homem – Nada, claro, estava só a pensar comigo mesmo!
Jornalista – Ora, então deixem lá tirar-vos uma fotografia juntos. O editor e o poeta!

O Editor junta-se ao Homem e o jornalista tira-lhes a fotografia.

Jornalista – Esta é a nova menina dos meus olhos… [mostrando a máquina fotográfica]
Editor – Tem aí uma bela peça!
Jornalista – É a mais recente tecnologia dentro de uma caixinha… Capta até seis milhões de cores e tonalidades.
Homem – De que lhe vale uma máquina que capte tantas cores se aqui existe apenas o cinzento?
Editor – As dúvidas sempre presentes de um poeta! Por isso gosto tanto de poetas, querem respostas para todas as perguntas…
Jornalista – Pensei que isso eram as crianças, não os poetas!
Editor – São coisas parecidas, são coisas parecidas, meu caro amigo…
Homem – Em quanto tempo terei os meus poemas num livro?
Editor – Em pouco tempo, o mais rapidamente possível. Tenho de recuperar o investimento feito tão depressa quanto possível. Com o que paguei ao jornalista, os seus poemas custaram mil notas. É muito dinheiro, não contando com o dinheiro que a empresa vai gastar na impressão dos livros. Espero que não demore muito a recuperar o dinheiro investido.
Jornalista – Com a notícia de amanhã, a primeira edição esgotará em menos de nada, o livro mal terá tempo para assentar nas prateleiras.
Editor – Bem, tenho de ir a outros sítios, outros negócios, outros poetas. Não me levem a mal, mas tenho de me ausentar.
Jornalista – Eu acompanho-o, que tenho de preparar a notícia de amanhã.
Homem – Adeus, senhores!

O Homem fica sozinho no palco, senta-se no chão, pega numa caneta e noutro caderno e começa a tentar escrever qualquer coisa. Entretanto, rasga um papel. Começa a tentar escrever, rasga papel, assim, repetidamente, por mais duas ou três vezes. Entretanto, fecha o caderno, levanta-se e diz:

Homem – Bem, parece que não estou inspirado. Não me sai nada! Talvez amanhã seja um dia melhor.

O Homem abandona o palco.

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