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O editor e o jornalista encontram-se secretamente:
Ambos trazem uma cadeira na qual se vão sentar, frente a frente.
Editor – Bem, vou directo ao assunto que me levou a marcar esta reunião consigo.
Jornalista – Suponho que tenha a ver com o poeta.
Editor – E supõe muito bem. O que quero que faça é que descubra qualquer coisa sobre este poeta, qualquer coisa em grande, bom ou mau, não interessa, um escândalo, qualquer coisa que chame mesmo a atenção do público.
Jornalista – Estou a perceber! Boa ou má publicidade o que interessa é que ponha o poeta a ser falado, que o lance na praça pública como uma bomba, para que no dia seguinte as vendas disparem e você recupere logo o investimento feito no homem.
Editor – O investimento está recuperado. O livro foi lançado ontem e hoje de manhã já tinha o dinheiro investido nas minhas mãos. Mas esse poeta tem que me dar muito mais, tem de voltar a trazer o nome da editora para a ribalta, custe o que custar.
Jornalista – E a notícia terá de sair para isso acontecer, certo?
Editor – Certo!
Jornalista – Custe o que custar…
Editor – Bem, eu já tinha pensado numa boa proposta para si. Que me diz a duzentas notas agora e mais duzentas depois da notícia. Dou-lhe mais cem de bónus se a notícia tiver o impacto que pretendo.
Jornalista – O que no total dá quinhentas notas… Acho pouco, para aquilo que você virá ganhar. Quero o dobro. Quatrocentos antes, quatrocentos depois, duzentos de bónus.
Editor – Agora só lhe posso dar trezentos, é tudo o que tenho. Dou-lhe quatrocentos depois da notícia e mais trezentos de bónus. Aí tem os seus mil. Que me diz?
Jornalista – Negócio fechado…
Editor – Agora trate de fazer um bom trabalho. Você vai receber mais que o próprio poeta, não se esqueça disso.
Jornalista – O que é normal, partindo do princípio que o poeta é um novato entre nós!
Editor – Um novato?
Jornalista – Um recém-chegado! Tem poucos dias que está por cá…
Editor – Daí a sua inocência, coitado. Ainda se está a adaptar… Há-de aprender a safar-se!
Jornalista – A seguir a esta não cai em mais nenhuma!
Editor – Então e voltando ao que interessa, em quanto tempo acha que consegue saber alguma coisa do homem?
Jornalista – Vou estar atento. Em três ou quatro dias já deve estar na primeira página.
Editor – Está óptimo. Não dará tempo para a situação arrefecer depois do impacto do lançamento. Então vá trabalhar, não perca mais tempo.
Jornalista – Vou sim… Mãos à obra que o relógio não pára.
O Jornalista sai do palco e leva consigo a sua cadeira.
O Editor pega na cadeira e aproxima-a do limiar do palco, coloca-a de frente para o público e senta-se de modo a ficar em posição frontal para o mesmo.
Editor: Quando aqui cheguei, era como o poeta! Era humilde e inocente, tinha pena de enganar o próximo. O coração falava sempre mais alto e depois perdia sempre bons negócios. A editora não tinha nome no mercado, os livros ficavam anos nas prateleiras, o negócio não progredia como eu desejava. Depois, tantas quedas, tantas desilusões, tantos falhanços, tantos negócios perdidos, aprendi uma lição. O coração é para a família, para os negócios usam-se os tomates e a cabeça. Em mim nasceu outro homem, mais pobre de espírito, mais rico no resto. Era este o tipo de homem que o mundo aprendera a premiar, foi esse o tipo de homem que eu lhe dei a conhecer. É esse o homem que todos vocês condenam, mas o qual premeiam e no qual muitos de vocês se transformaram também. Com pena!
O Editor levanta-se e abandona o palco, levando consigo a cadeira
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