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O Homem junta-se ao restantes transeuntes:
Homem – Olá senhor, sabe-me dizer onde estou? Que lugar é este sem cor?
Jornalista – Estou a trabalhar amigo, não tenho tempo para conversas. Não vê que sou um jornalista com mais que fazer? (enquanto tira fotos a uma mulher loura que se enrola com um tipo de gravata)
Homem – Mas só quero saber onde estou! Não lhe roubo muito do seu tempo! Pago-lhe até se quiser.
Jornalista – Estamos no limiar do Universo, muito há para além de onde estamos para conhecer e explorar…
Homem – Sítios com mais cor do que este?
Jornalista – Com mais cor? Não há cor para além do cinzento. Há sim outros lugares onde o cinzento é mais suportável…
(ao fundo, três crianças de vermelho brincam às corridas enquanto dão gritinhos de alegria)
Homem – Então e eles? Não estão de cinzento… (apontando na direcção das crianças)
Jornalista – Ah, os pequenitos! Eles crescem, nós é que já não voltamos a ser mais novos. Eles estão daquela cor de quem ainda acredita. Já nem me lembro da cor, tanto foi o tempo que passou…
Homem – Vermelho, aquilo é vermelho.
Jornalista – Eu chamo-lhe a cor de quem ainda acredita… E você deve ter vindo de lá faz pouco tempo, é sem dúvida um recém-chegado, ainda se lembra da cor e as crianças não lhe passaram despercebidas.
Homem – A cor de quem ainda acredita no quê? E por que raio as crianças me haviam de passar despercebidas?
Jornalista – A cor de quem ainda acredita na felicidade! Nós os que chegamos aqui já não nos apercebemos de como é belo o sorriso de uma criança, de como é fascinante vê-los a correr de um lado para o outro.
Homem – Mas de onde vim eu afinal para ser um recém-chegado?
Jornalista – Da outra ponta do limiar do Universo, do lado de lá da fronteira, do lugar onde é complicado voltar depois de vir cá parar. Só as crianças têm o dom de se passearem por um lado e por outro e de conviverem com ambos os lados sem serem contagiadas por quem está do lado de cá…
Homem – E quem está do lado de cá carrega o fardo de já não acreditar na felicidade?
Jornalista – Exacto!!!
Homem – Mas eu acredito…
Peixeira – Então porquê toda aquela dissertação poética de há pouco? (quase grita a mulher enquanto abana um peixe na mão)
Homem – Dissertação poética?
Peixeira – Porque estás em todo lado, menos aqui, no Universo? (imitando-o, com ar de gozo)
Homem – Apenas uma crise existencial, como tantas outras…
Jornalista – A última crise existencial, queres tu dizer!
Peixeira – Óh filho, agora estás aqui, já daqui ninguém te tira, nem que te saia o totoloto como aconteceu àquele. (apontando para o tipo de gravata que beija a mulher loura)
Jornalista – E nem que fiques famosa como aquela! (apontando para a mulher loura)
Homem – Mas se eu digo que acredito, quem são vocês para me convencerem do contrário?
Jornalista – O que querias ser em adulto, quando eras pequeno?
Homem – Astronauta!!!
Peixeira – És?
Homem – Não!
Jornalista – Acreditas que ainda virás a ser?
Homem – Não!
Jornalista – Onde querias morar quando começaste a fazer os teus planos de independência?
Homem – Numa casa com piscina!
Peixeira – Moras?
Homem – Não!
Jornalista – Acreditas que virás a morar?
Homem – Não!
Jornalista – Qual foi a última mulher que amaste?
Homem – Uma bela e encantadora mulher, uma verdadeira princesa!
Peixeira – Mas não a conquistaste?
Homem – Não!
Jornalista – E acreditas que virás a conquistar?
Homem – Não!
Jornalista – Qual foi o último grande objectivo que traçaste?
Homem – Ser cantor!
Peixeira – Conseguiste?
Homem – Não, não consegui… (diz a cantar e mal)
Jornalista – E ainda bem, poxa! Estás a ver, também não acreditas que o serás ainda, pois não?
Homem – Não!
Peixeira – Não acreditas sequer que ainda poderás cumprir pelo menos um dos teus sonhos, como queres acreditar na felicidade?
Jornalista – Esquece e mentaliza-te… Estás agora convencido que não foi só uma crise existencial? Transitaste definitivamente para o lado de cá, foste contagiado, jamais poderás voltar para o lado de lá!
Homem – Só as crianças conseguem conviver com os de cá e com os de lá sem serem contagiados!
Jornalista – Exacto! Estou a ver que já estás a compreender…
Peixeira – Temos pena, rapaz, é assim a vida!!!
Homem – Obrigado pela vossa ajuda, ainda não tinha compreendido onde estava se não fosseis vós! (enquanto se vai afastando lentamente)
Jornalista – Oh rapaz, anda cá!
Homem – Diga, senhor!
Jornalista – Disseste que me pagavas pelo meu tempo! Aqui, tempo é dinheiro. Tens de aprender a viver como um de nós…
Homem – Pegai, é tudo o que tenho! Vinte notas. (enquanto lhe mete o dinheiro na mão)
Peixeira – E eu? Também ajudei!
Homem – Pede ao jornalista que tenha compaixão e divida contigo…
Peixeira – Oh jovem, compaixão é coisa mais comum lá no sítio de onde vieste! Aqui há pouca ou nenhuma… Vai rapaz, vai à tua vida!!!
O Homem sai de cena por alguns instantes e a conversa continua entre o Jornalista e a Peixeira:
Jornalista – O rapaz fez-me recordar o dia em que cheguei aqui. Os primeiros dias foram difíceis, depois adaptei-me bem…
Peixeira – Há-de safar-se, o rapaz…
Jornalista – Se ambicionar tanto como eu, saberá que há mais lugares no Universo, onde o cinzento é muito mais suportável que o cinzento daqui.
Peixeira – Eu já aprendi a suportar o daqui…
Todas as personagens saem de cena, incluindo as não falantes e pela primeira vez o palco fica totalmente vazio.
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