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Um homem com ar sereno e aspecto confiante entra em palco:
O dito homem está de cinzento, um ar sábio e na mesma medida humilde.
Sábio – As coisas não são bem assim! Está certo que o tipo não está errado em tudo o que diz. Será que a sociedade premeia os homens que usam mais a cabeça e menos o coração? Acredito que sim! Será que a sociedade aperta o cerco aos justos e facilita os infractores e os que nos seus negócios não olham a meios para atingir fins? Podeis querer que sim. Mas não haverá outra forma de vingar sem ir por esse caminho? Haverá certamente. Pede mais sacrifícios, pede que não enganemos o próximo, pede que usemos mais o coração ao invés da cabeça, pede que respeitemos e sejemos sensatos, que às vezes contrariemos a pressa de chegar a algum lado. Exige menos medo, mais coragem, menos ódio, mais amor e paixão naquilo que é feito. Pode ser um caminho mais doloroso, mas é certamente um caminho mais compensador.
O Homem que entrara no palco segundos antes e escutara parte da dissertação do Sábio, resolve intervir na conversa:
Homem – E qual a vantagem de escolher um caminho em vez do outro para alguém que não tem consciência, para alguém que mesmo seguindo o caminho que dizes errado não se sente minimamente culpado por o fazer?
O Sábio vira-se e encara o Homem:
Sábio – E quem é que não tem consciência? Quem poderá não sentir culpa sabendo que está a fazer mal a alguém…
Homem – Há por aí alguns assim.
Sábio – Há, sim, os que adormecem a consciência e assim suportam facilmente a culpa de ter feito mal a alguém. Não temos de ser iguais a eles. Esses jamais poderão aspirar a conhecer a felicidade, as suas almas são negras e nunca a felicidade quererá morar numa alma negra, numa casa sem luz.
Homem – E achas que o outro caminho pode ter como destino a felicidade?
Sábio – Se em vez de te tornares um aliado dos demónios que encontras no caminho te tornares um guerreiro que os combate, o sabor das conquistas feitas com suor e com risco, o sabor das vitórias alcançadas pela via do amor e da coragem têm um gosto especial, muito idêntico ao que chamas de felicidade.
Homem – E a felicidade existe? Onde está então, que quando chamei por ela respondeu-me o eco da minha voz.
Sábio – A felicidade existe mas não se pode ser feliz…
Homem – Para que existe a felicidade se não se pode ser feliz?
Sábio – Porque se pode estar feliz…
Homem – Temo não ter compreendido.
Sábio – Não podes ser feliz, somente podes estar feliz. O que a maioria das pessoas anseia é ser feliz e daí a desilusão de todo este povo vestido de cinzento. Tempos houve em que acreditaram numa coisa que não existe – A felicidade constante! E quando se aperceberam disso deixaram de acreditar em algo que existe - A felicidade, simplesmente..
Homem – Que existe mas não se pode ser, só estar.
Sábio – Exacto. A felicidade são momentos, são aqueles momentos em que saboreias algo. (O Sábio tira uma maçã do bolso e dá-lhe uma dentada, depois disso volta a meter a maçã no bolso)
Sábio (continuando) – Tal como esta maçã! Agora desfruto o gosto dela, sinto o seu sabor adocicado, porém daqui a nada o seu sabor não estará mais aqui. Tenho de aproveitar o saborear a maçã, fazer o momento durar tanto tempo quanto possível, este é o segredo da felicidade, reconhecer quando presente, aproveitá-la, fazê-la durar tanto quanto for possível, vivê-la intensamente. E lá está, não se pode ser feliz, porque o ser implica constância, permanência, etc…
Homem – Mas pode-se estar feliz e aproveitar enquanto se está feliz…
Sábio – Exacto.
Homem – Custa-me a acreditar, assim todos estaríamos de vermelho ao invés de vestirmos o cinzento, todos temos momentos felizes. Às vezes, eu estou feliz, e então, porque estou de cinzento?
Sábio – Porque não acreditas na felicidade. Porque os que vestem o vermelho acreditam na felicidade, os que estão de cinzento não acreditam. Viveste demasiados anos enraizado à ideia de que a felicidade tinha de estar associada a algo que é para sempre e que traz tranquilidade permanente. Descobriste que essa felicidade não existe e assim deixaste de acreditar na mesma. Agora terás de lutar para voltares ao outro lado da fronteira, para voltares a acreditar, para voltares a vestir o vermelho ao invés do cinzento.
Homem – Uma vez deste lado, jamais alguém regressa ao outro lado da fronteira, foi o que me disseram.
Sábio – Estás contagiado, rapaz! Já acreditas tanto nessas palavras como quem tas disse! Foi um instante para passares a pensar como eles.
Homem – Se acreditas nisso tudo, se crês realmente na felicidade e que é possível transpor a fronteira, por que estás tu de vestes cinzentas?
O Sábio aproxima-se do Homem e desabotoa os primeiros botões da camisa. Por baixo, mostra uma camisola vermelha que trás vestida. Depois, perante o olhar absorto do Homem, faz sinal com o dedo para que o Homem permaneça em silêncio, apelando a que este guarde o segredo.
Homem – Não compreendo!
Sábio – Tenho de fingir que sou um deles para poder andar por aí livremente sem que estes me tentem contagiar.
Homem – Por que haviam de querer contagiar-te?
Sábio – Porque se preocupam mais em mostrar aos outros que a felicidade não é possível do que em procurarem eles próprios ser felizes.
Homem – Não tens medo que eu te contagie?
Sábio – Eu não disse que tinha medo que me contagiassem, disse que evitava que me tentassem contagiar. São coisas diferentes! Mesmo que quisesses, não conseguirias. Mas vocês, os tipos de cinzento, podem tornar-se chatos e eu não tenho paciência para isso.
Homem – Tenho de reflectir sobre tudo isto, sobre todas estas palavras, sobre tudo o que acabaste de me dizer. É tudo muito estranho, ainda!
Sábio – Tens de aprender a confiar mais. Em acreditar. Não acreditas nem no que os teus olhos vêm! Acabaste de ver-me as vestes vermelhas, mas mesmo assim duvidas, teimas em usar a cabeça no contrapeso do coração. Vai, rapaz, vai e pensa em tudo isto, em tudo o que ouviste. Provavelmente encontrarás argumentos para não te deixarem seguir o teu coração, a não ser que voltes a colocar o mesmo no outro prato da balança. Aí descobrirás em ti mesmo, no teu interior, que afinal a felicidade existe, que afinal ela é possível, no entanto conjugando o verbo estar, não o ser.
O Homem vai para um canto do palco, onde se senta no chão a pensar.
O Sábio abandona o palco, mas antes disso dirige uma última palavra ao público.
Sábio – E vós não vos esqueceis de ser guerreiros em vez de se tornarem aliados preguiçosos do caminho fácil.
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