domingo, 14 de março de 2010

3ª Parte




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Um palhaço e um vendedor entram no palco

O vendedor desata a tentar vender o elixir da felicidade ao público presente.
O palhaço desata a fazer palhaçadas.

O vendedor está vestido com um fato azul claro.
O palhaço está com um fato colorido de palhaço.

Entretanto o Homem entra no palco.

Vendedor – Olhe o elixir da felicidade meu caro amigo! Compre dois e ofereça um ao seu melhor amigo. Na compra dos dois terá a oferta extraordinária de um fabuloso relógio de pulso para que possa controlar bem o seu tempo, porque tempo é dinheiro…

O palhaço desata a fazer palhaçadas em silêncio e faz o Homem rir-se por um momento mas este logo volta à sua postura normal de rosto sisudo, cara com que entrara em palco nesta 3ªparte.

Homem – Por que estão vocês vestidos de cores diferentes que não o cinzento?
Vendedor – Porque tomámos o elixir da felicidade!!!
Palhaço – Porque estamos a fingir que estamos felizes e que acreditamos na felicidade…
(o vendedor faz uma cara de frustrado e lança um olhar furioso ao palhaço)
Homem – E por que fingem vocês que estão felizes ou que acreditam na felicidade?
Palhaço – Porque faz parte do nosso trabalho!
Vendedor – Já vi que contigo aqui não vendo nada…
Palhaço – E quantos vendes quando não estou ao pé de ti?
Vendedor – Um ou outro, quando chega um novato… Se tu não estiveres por perto, claro! Mas a coisa vai mudar, agora que incluí o relógio como oferta. O tempo é o bem mais precioso dos que estão do lado de cá…
Homem – Tempo é dinheiro!!! (Dispara com desdenho)
Vendedor – Nem mais! Tempo é dinheiro…
Homem – Só pensam em dinheiro, dinheiro, dinheiro.
Palhaço – Dinheiro para ganhar tempo, tempo para ganhar dinheiro!!!
Homem – E para quê ganhar tempo e dinheiro se nem isso leva a acreditarem na felicidade?
Vendedor – Para ganhar um futuro sossegado. Para construir bases para ter uma vida sem grandes atribulações e preocupações. Porque posso não ter uma vida feliz, mas posso ter uma vida menos preocupada, no futuro.
Palhaço - A reforma!
Homem – Ah!!! E do que vos vale a reforma, se quando olharem para trás vão ver que viveram uma vida inteira e nunca fizeram nada daquilo que queriam realmente fazer?
Vendedor – E o que queres que façamos? Encostamo-nos e não fazemos nada, não procuramos o sossego de amanhã, morremos aí pelos cantos, uns com fome, outros com frio, outros sabe-se lá mais do quê! Tudo o que vês à tua volta custa dinheiro, não é o elixir da felicidade mas é o elixir da sobrevivência, e para ganhar dinheiro precisas de controlar o tempo e para controlares o tempo da melhor forma às vezes precisas de dinheiro.
Palhaço – Então tu não trabalhas? Como sobrevives?
Vendedor – Posso arranjar-te um emprego como meu ajudante, eu passo a chefe de vendas e tu tomas o meu lugar de vendedor ambulante. Assim terei mais tempo para cuidar do negócio.
Homem – Não tenho vocação para vendedor!
Vendedor – Então para que tens tu vocação?
Homem – Não sei!
Palhaço – O que sabes tu fazer?
Homem – Sei escrever! Poesia!!!
Palhaço – És poeta?
Homem – Nunca ousei sê-lo. Tenho medo que não gostem…
Palhaço – Pois, o medo, uma das coisas que nos trás para aqui!
Vendedor – Podias vender, recitando poesia. Já estou mesmo a ver: Elixir da felicidade/ Só trás alegria/Se comprasses dois/Este relógio te oferecia… (recita em voz alta para o público)
Palhaço – Dedica-te mas é à pesca!
Homem – Escravo do tempo, do relógio, do segundo, do minuto, de uma hora mal amada/ Prisioneiro, mais um, de um sítio sem cor/ Suporta minha alma amedrontada/ Esta tamanha dor… (declama em voz alta o Homem, perante o olhar absorto do palhaço e do vendedor)
Vendedor – Bem! Não se pode dizer que não tenhas jeito. Podias encontrar um editor que te desse algum pelos teus poemas no papel.
Palhaço – Às vezes as pessoas precisam de encontrar o espelho daquilo que sentem no papel, na poesia dos outros, tu podias proporcionar-lhes isso.
Homem – Não sei! Nem sei se as pessoas iriam gostar nem sei se seria capaz de o fazer para ganhar dinheiro. Faço-o por gosto, não por questões económicas.
Vendedor – Farias por gosto na mesma! Apenas juntarias o útil ao agradável. Money, Money, Money!!! (começa a fazer o sinal típico do dinheiro com os dedos)
Palhaço – Não custa nada tentares!
Homem – Vou pensar nisso.
Vendedor – Bem, acabou o meu horário de trabalho! ( e começa a despir o fato azul bebé, por baixo trás o habitual traje cinzento; o palhaço começa também a fazer o mesmo e a tirar a maquilhagem do rosto)
Palhaço – Bem, são horas de ir para casa, a família espera-me para jantar.
Vendedor – Está na minha hora também!

O Homem fica sozinho no palco e resolve recitar mais um poema:

Homem:
Talvez haja no labirinto dos poemas
Um pouco da criança que fui um dia
Talvez haja além na fronteira
Uma passagem secreta e fugidia…

O Homem recolhe do palco.

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